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  • Josuel Junior

Precisamos falar de... troca de ideias com coleguinhas da arte


Eu adoro a filosofia do Grupo Liquidificador e do Grupo Tripé (ambos do DF), mas confesso que sou tímido demais pra dizer a eles o quanto são bons pelo fato de produzirem coisas que nem sei como denominar, mas que simpatizo. Já outros artistas eu só acompanho pelo instagram, como o Gustavo Letruta, bailarino, cineasta, drag queen e dono de uma produtora de vídeos. Curto tanto as fotos que fico até receoso por tanta stalkeada. Com outros artistas, vou tentando me chegar quando percebo uma abertura. É o que fiz com o Roberto De Martin, que já conhecia de alguns castings que fizemos juntos na cidade, por alguma coisa na TV e por uns vídeos com fragmentos poéticos que ele publica na rede. Ele está em cartaz com uma peça neste final de semana... uma provocação poética que tem Beckett e Belchior como ponto de partida. Uma proposta que me seduziu logo de cara, mesmo sem eu entender direito do que se trata tudo.


Com outros artistas, ando flertando sempre... A Ana Flávia Garcia eu já admirava há muitos anos. Desde que comecei a trabalhar com palhaçaria (lá nos idos de 2004) já a considerava doidona, anárquica e potente. Só agora, tantos anos depois, é que fui percebendo que sempre tropeçamos um no outro e nunca nos demos conta. Vi aqui nos meus arquivos de trabalho que estivemos juntos e estampados em matérias de jornal várias vezes. Cada um falando de seu trabalho, que tem uma ligação semelhante para com o público. Dia desses mesmo fomos convidados por Georgia Rafaela e Gustavo Reinekein a participar do projeto "Trabalho de Mesa" para discutirmos sobre produção cultural em editais. Definitivamente, as entrevistas têm nos unido... mas eu preferiria que essa união fosse mais artística do que midiática (fica a dica).


Voltando a falar sobre seduções de cara, quero comentar a experiência que tive com o Grupo Liquidificador na semana passada. Vi o argumento da peça "Janta 2 - A Ratoeira" e me desloquei de Samambaia/DF para o Núcleo Bandeirante/DF pra ver um espetáculo dentro de uma casa. Não vou dizer que conheço todos os trabalhos do grupo, mas gosto do clima deles. O Fernando Carvalho eu conheci anos atrás numa vivência de palhaço do Zé Regino. Não nos tornamos amiiiiigos, mas acho que nos tornamos admiradores um do outro. Sobre a peça, eu tenho sérios problemas com interação entre atores e plateia. Quando estou atuando e sou posto nessa condição, estudo todas as formas possíveis de não ser invasivo ou prepotente, pois como público tenho muita preguiça disso, confesso. Pois bem. Uma coisa a peça do Grupo Liquidificador fez bem... Ofereceu comida pra gente. Se tem comida e se pode comer, já nem tem como não se sentir à vontade, pois a interação começa no momento em que me sinto livre pra degustar gostosuras. A comida foi o prato de entrada pra que eu me sentisse carinhosamente acolhido (ahahaha ahh, a gula!).

Na peça, quando entramos no ambiente cênico, descobrimos que somos convidados de uma festinha surpresa de uma personagem que está por vir (interpretada loiramente por Fernando Carvalho). De repente, todos somos condicionados a nos esconder para fazer uma surpresa ao aniversariante. Na hora, me bateu uma resistência de leve, mas quando percebi já estava comendo sacanagem (aqueles enlatados no palitinho) debaixo de uma mesa. Em seguida a festinha improvisada fica mais leve e entre pipocas e sucos de melancia, a gente vai se sentindo à vontade enquanto público e convidado da surpresa armada. Eu opto por brincar. Se a peça é boa, me permito brincar de acreditar... e quando vejo, me desligo desses argumentos semióticos, da análise da voz, do corpo em movimento. Nesse momento, me percebo dentro da obra e isso é muito bom pra todos nós. Lá, quem estava fazendo o registro fotográfico e videográfico era justamente o Gustavo Letruta. Aproveitei um momento de boa do espetáculo e o cumprimentei. Se não fosse assim, jamais o faria (ooolha aí o teatro aproximando o povo). A experiência é muito interessante. Não contarei sobre a peça pra não gerar spoiler, mas quero dizer que a encenação é pensada de uma maneira inteligente, a ponto de nos levar pra viagem que eles inventaram. E é uma viagem mesmo! Das boas!


Gosto. Gosto das propostas assumidamente alternativas, independentes. Tem muito grupo de Brasília que usa essa chancela de teatro de guerrilha, quando na verdade, possui uma filosofia oposta... a de se dizer guerrilheiro quando a grana diminui ou a panelinha dilui o fluxo criativo. Aí cria-se a legenda de "guerrilha" pra dialogar com o contemporâneo. Rum... Vai vendo! A gente percebe, mas ninguém comenta. É mais ou menos assim:

Eu finjo que é alternativo

Tu finges que é vanguarda

Ele finge que gostou

Nós fingimos que entendemos

Vós fingis que voltareis a assistir

Eles fingirão que são bons

Não considero o trabalho alternativo e independente unicamente como resultado de fatores condicionais (embora sejam rs), mas considero a alternatividade e independência teatral como provocações que atuam como subsistência aos grupos, pois são estímulos filosóficos e ideológicos. Não chega a ser uma negação ao popular, ao famoso, embora a força das palavras e dos conceitos de grupo encaminhe nosso pensamento para essa primeira impressão.


Na minha época de faculdade (lá se vão 10 anos) eu achava que famoso era quem eu conhecia e que tinha feito comercial de TV e quem era amigo dos meus professores. Pelo o que sinto, os novos estudantes de artes cênicas continuam pensando assim. É como se o teatro mais antigo fosse aquele que acontecia um semestre antes do estudante começar a fazer a faculdade. Como se o teatro local começasse a partir do momento em que se torna um calouro. Quem era bom antes da entrada deles se torna figura desconhecida na cidade e isso alimenta uma noção perigosa de condado artístico em Brasília. São pequenas cortes. Sei que é difícil que conheçamos todo mundo. É ótimo que todo mundo se conheça, claro, mas é ótimo saber também que em Brasília há mais gente que produz muita coisa boa... Há gente que produz muita coisa mediana e também há gente que produz muita coisa ruim... e tá tudo bem. Não é um problema, mas quando a coisa é boa (seja como produção, seja como intérprete), a gente tem que elogiar... e ressalto que boa parte desse "proletariado" artístico se encontra nas produções independentes e genuinamente de guerrilha.

Sinto mesmo vontade de conhecer mais a fundo essa galera de Brasília. Tudo é muito mutável, pouco histórico. São famosidades perecíveis. Só que conhecer todo mundo é meio caro. Não é sempre que a gente tem aí R$40,00 pra gastar todo sábado vendo os colegas da cidade. Some aí R$40,00 quatro vezes ao mês e adicione a tarifa de passagem de transporte ou de combustível. É caro estar em todas. E eu odeio sair de casa e não passar no McDonalds pra tomar meu sorvetinho, então já somo mais uns R$10,00. Por isso, me sinto na responsabilidade de escolher a dedo o que quero ver... e é maravilhoso quando acerto na mosca e volto pra casa provocado - o que aconteceu quando fui ver "A Janta 2", do Liquidificador.


Mas, Josuel, qual é a lógica deste texto? A lógica desse texto é dizer que podemos conversar mais. Que somos bonitos na rede social, mas que o nosso papo é ainda mais bonito frente a frente. A lógica desse texto é dizer que vai rolar uma peça do Roberto De Martin no Espaço (alternativo) Casa dos Quatro neste final de semana. A lógica desse texto é dizer que o "Trabalho de Mesa" tá com um projeto massa no Podcast onde se discute a produção cultural em edital público, que a Baleia Filmes (do Letruta) lançou o primeiro epísódio de "CANTIGAS BOLERÁVEIS LTDA" na internet. A lógica desse texto é dizer que há muita coisa boa nessa cidade além dos destaque de jornais onde aparecemos de vez em quando... mas, no fundo, no fundo, a principal lógica desse texto é tentar dizer a Fernando Carvalho, Ana Quintas, Roberto De Martin, Fernanda Alpino, galera do Tripé, Karinne Ribeiro, Gustavo Letruta e Ana Flávia Garcia que vocês são muito fodas, cara. Que independente da gente não se topar direto pelas vielas desse condado teatral de Brasília, eu admiro pra caralho o trabalho de vocês.

Precisamos falar de... troca de ideias com coleguinhas da arte.

DICA DO FINAL DE SEMANA:

O contador de histórias para nada - Casa dos Quatro (708 Norte)

Sexta (24/11) e sábado (25/11), às 21h, domingo (26/11), às 20h. O espetáculo interpretado por Roberto de Martin é inspirado nos textos de Samuel Beckett e nas músicas de Belchior. Ingressos: R$ 10 (meia-entrada) e R$ 20 (inteira). Classificação indicativa livre.

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