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  • Josuel Junior

Precisamos falar de... Rômulo Mendes


Ator (dos bons), cantor (dos bons), bailarino, dramaturgo, diretor e professor de teatro. Dono das caracterizações de personagens mais bacanas, ele é mais um desses colegas que fazem teatro a todo tempo e o tempo todo. Por isso, precisamos falar de Rômulo Mendes.


Ahhh, meu caro leitor... a gente pensa que sabe improvisar! Sim... a gente pensa! Até conhecer esse moço e entender o que é ter ritmo de improviso em cena.

Conheci Rômulo associando a imagem dele à da Neia e Nando. Talvez, por saber que ele sempre esteve envolvido em produções diversas da companhia teatral que mais produz espetáculos infantis em Brasília. Isso foi em meados de 2009, quando ele ainda morava em Samambaia Norte. Sempre o encontrava nos corredores da Faculdade Dulcina. Eu não entendia muito bem como funcionava a Neia e Nando. Sempre soube da quantidade de críticas acadêmicas a respeito de seus trabalhos (coisas que a academia adora fazer), mas passei a respeitar e entender melhor o ritmo da produção do grupo conhecendo de perto os atores que participavam dele. Honestamente, não me sinto apto a falar muito sobre a filosofia da companhia, mas posso assegurar que os atores que conheço e que passaram (e passam) por ela, são os atores que mais facilidade têm para decorar um texto teatral... Acredito que isso aconteça pelo grande fluxo de trabalho que os profissionais têm para acompanhar o cronograma de apresentações.


Pois bem... o Rômulo que conheci sempre foi esse profissional atento, dedicado e que possui um nível de improviso refinado, cara... Na verdade, sinto isso em muitos atores que tiveram passagens pela Neia e Nando. É uma sagacidade, um tempo pra comédia, pra sair de situações de risco em cena com verdadeiro jogo de cintura. Isso que vi no Rômulo, pude ver também em atores como Tainá Palitot, Filipe Lima e Kelly Costty ao longo de minha carreira.

A primeira experiência que tive com o ator, foi nos processos de ensaios do espetáculo "Dia de visita" (Dulcina Parcerias Teatrais e Fábrica de Teatro), aquele que se passava numa prisão construída no subsolo do CONIC e que fez muito sucesso em Brasília entre 2009 e 2011. O papel de Rômulo era um dos mais complexos da obra: o rapaz que era violentado na ala masculina da peça, que apresentava a obra "Barrela", de Plínio Marcos. Devemos ao Rômulo uns 30% de toda a bilheteria, pois praticamente todo o elenco da Neia e Nando foi assistir às sessões. Era quase uma caravana pra vê-lo em cena. Pra nós, do elenco e produção, era ótimo, pois garantia a casa lotada (hehe). Sério... no final da peça parecia até que a Escola Parque da 308 Sul tinha mudado pro CONIC.


Ainda sobre o "Dia de visita", há duas curiosidades ma-ra-vi-lho-sas que nunca me esquecerei. Na cena, dirigida por Francis Wilker e Nei Cirqueira, a personagem de Rômulo era a que apresentava o grande conflito da peça. Ela chegava em cena, era posta dentro da cela com vários homens querendo possuí-la e tal. Em determinado momento da peça, nós, atores, tínhamos que puxar sua roupa e rasgar a camiseta inteira. Nas primeiras sessões, a gente rasgava mesmo e fazia Rômulo parecer um boneco João-bobo (risos, muitos risos). Aí, ao final da peça, ele veio indignado dizendo que não faria de novo se fosse assim (pois ao puxarmos a camiseta pra rasgá-la, com ele ainda vestido, ralamos muito seu pescoço e seus braços (por causa da gola e da costura das mangas). Resultado disso? Este escritor que vos fala chegava bem cedo ao teatro para soltar com uma tesourinha ponto por ponto das camisetas ele iria usar em cena, com o intuito de rasgarmos ela com facilidade e não torar o pescoço do menino. Eram duas camisetas por dia (pois fazíamos sessão dupla). Teve um dia em que os pontos de costura foram todos tão bem tirados que na hora em que demos o primeiro puxão, ele já estava pelado. A adequação foi beeem gradativa mesmo, mas sempre nos rendeu risadas após a peça.


A outra curiosidade é que a cena do estupro era muito violenta. Tinha cuspe, tinha a sujeira do subsolo do Dulcina, a própria nudez dos atores e a truculenta ação cênica (que realmente era pesada). Ao final do ato, o público ficava estarrecido, enojado e nós, atores, com a adrenalina lá em cima. Para não expor frontalmente a nudez, havia uma movimentação que ele fazia, recolhendo seu corpo no chão e ficando de costas para o público enquanto tentava vestir novamente sua calça jeans (acreditem... estou rindo muito agora). Num dos dias, ele virou de costas para o público e de frente para nós e na hora em que ele virou, todos os atores também tiveram um suspiro de espanto... Havia uma barata IMENSA, MORTA, ESMAGADA, ESCORRIDA e PREGADA entre o peito e a barriga de Rômulo. Provavelmente ela passou pelo chão na hora em que o jogamos pra cena começar e ali mesmo chegou ao seu ciclo final de vida. A nossa expressão era de perplexidade e vontade de tirar aquele inseto maligno antes de o público perceber. Não me lembro qual foi a solução que demos (provavelmente começamos a estapeá-lo, sei lá), mas tenho total certeza de que é uma imagem de "Dia de visita" que levaremos para o resto de nossas vidas. Foi foda... Eu fecho os olhos e ainda vejo as patinhas dela (rs).


Nesse período, tivemos uma aproximação pessoal mais intensa e aí fui entendendo aos poucos qual era a escola de iniciação desse colega, que com o tempo se transformou num querido amigo. Rômulo havia trabalhado com Andre Amaro e também é daquela geração que fez muito teatro com Plinio Mósca em Brasília. Dessa ninhada, por exemplo, temos aí os atores Jhony Gomantos, Érika Guedes, Leonardo Flores e Gleide Firmino... Uma galera boa que seguiu carreira por aí. As oficinas de Plinio culminavam sempre em espetáculos apresentados em teatros de Brasília e em festivais de teatro popular latino-americanos. Na primeira vez em que fui ao Chile para fazer teatro, quem me deu as instruções de como melhor aproveitar a estadia em Santiago foi justamente Rômulo, que já havia tido experiências internacionais. Recordo-me de um dicionário em espanhol que me deu pra que eu não ficasse muito deslocado na viagem. Nesse mesmo período, fui chamado pelo Teatro do Concreto pra substituir um ator de "Diário do Maldito", peça dirigida por Francis Wilker. Fiz só uma temporada e pedi pra sair, recomendando o Rômulo como um dos nomes pra essa outra substituição. Rômulo engatou com o grupo e juntos fizeram turnês por esse Brasilzão. Uma pena que eu nunca tenha conseguido ver ele em cena nessa peça. Pelo o que me disseram, ele mandou muito bem mesmo.

E de 2009 pra cá, cruzei teatralmente com ele em duas ocasiões...

A primeira, no espetáculo "O Inspetor Geral" (do Gogol), dirigido por Hugo Rodas. Um processo difícil pra caramba em que a gente demorou muito a embarcar. Foi bem delicada a aceitação à proposta de encenação. Inclusive, desabafávamos bastante nos bastidores pra aliviarmos a tensão e fazermos a peça (de humor) com humor no coração.


Na segunda ocasião, nos encontramos no processo de construção de "Peter Pan para os já crescidos", dirigido por Luana Proença. Jogar em cena com ele sempre foi muito bom, justamente por esse inteligência cênico-espacial que ele tem, sempre pronto pra fazer comédia na hora e no erro certo.


Como não tivemos mais oportunidade de atuar juntos, tive o prazer de vê-lo em cena numa das versões de "Aurora da minha vida", peça dirigida por Jonathan Andrade, onde a brincadeira rolava solta no elenco, que contava com gente muito, muito boa, como Magno Garrido e Flavio Monteiro.

Com trabalhos como ator ou arte-educador dentro e fora do núcleo da Neia e Nando, Rômulo passou a dar também aulas de artes cênicas em escolas do DF, conciliando as atividades com apresentações de eventos, participação em ações da Caixa Cênica e gravações de campanhas e filmes. Entre 2016 e 2017 engatou firme em forte no campo dos espetáculos musicais. Em apenas dois anos, participou de "Domingo no parque - um passeio pelos musicais brasileiros", "Evil Dead - a comédia musical", "A família Adams - o musical", "Quem um dia irá dizer", "Agreste" e "Um Reles Potter". É, meus amigos... Seis espetáculos musicais em dois anos de trabalho não é pra qualquer um mesmo.



Suas postagens nas redes sociais são sempre com maquiagens diferentes e que nós, pobres mortais, sabemos que não conseguimos chegar perto dos resultados alcançados. Aí o que é que Rômulo faz? Posta mais fotos de personagens caracterizados de uma maneira linda e atrativa. Na maioria das vezes, eu nem sei à qual peça ou ação cênica a personagem faz parte, mas gosto mesmo assim, tamanho o impacto visual que as maquiagens e figurinos têm.

Recentemente, em uma visita à minha casa, conversamos muito sobre amadurecimento, escolhas de trabalho, ritmo de vida e tudo que nos afeta e que muda esse nosso pique de fazer 10 mil coisas ao mesmo tempo. Uma das coisas que ouvi da boca de Rômulo e que muito me marcou foi: "Junior, a gente não é mais ninfeto. Agora os papéis são outros.".

Ta aí... de certo modo, ele tem razão.

Atualmente, Rômulo faz parte do Grupo Poetizar - Coletivo Teatral e segue realizando trabalhos como professor e ator por Brasília. Se você não conhece, procure conhecer... É daquele ator dos bons mesmo! Aproveito o ensejo da publicação deste texto, para replicar uma de suas postagens mais recentes nas redes sociais: "Ser ator é poder pedir licença pra vida real e sorrir outros sorrisos... Chorar outras lágrimas... Viver outras vidas... Às vezes um personagem é tão feliz, que preferia nunca sair dele...".

É isso! Precisamos falar mais de Rômulo Mendes.

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