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  • Josuel Junior

Precisamos falar de... Nobu Kahi


Ator, performer, apresentador, amigo de gente famosa, famoso em Brasília, amante da Chapada. Aquela figura que todo mundo conhece, sem ao menos lembrar de onde conheceu. Precisamos falar de Nobu Kahi!

Quando pensei em abrir um canal de discussão e apreciação sobre a área artística do DF, quis sair do lugar que críticas cults (não ignorando as críticas cults) para propor um bom processo dialético sobre colegas e obras de Brasília que admiro e que acho que precisamos enaltecer. Não por um vão discurso de vaidade ou bajulação e sim por verdade e admiração.



Eu já sabia quem era Nobu Kahi, mas não faço a ideia de onde o conhecia. Só sabia. É meio que um senso comum, sabe? Por exemplo... Todo mundo sabe que "Roque Santeiro" (TV Globo/ Dias Gomes) é uma grande novela, mas metade das pessoas que sabem que "Roque Santeiro" foi uma super novela, nunca nem viu a trama. Pois bem, essa era a imagem que eu tinha dele. Tínhamos gravado um filme antes, mas sei que pouco falamos na época. Sabia quem era, mas não o conhecia bem, até que um dia estourou um vídeo na internet gravado na Universidade de Brasília. Era uma paródia sobre a música "Gangnan Style", do sul-coreano Psy. O vídeo é bem trash, mas é gostosinho de assistir uma, duas ou, sei lá... cem mil vezes.

Na época em que o vídeo bombou no Youtube, eu estava trabalhando na produção de reportagens da Globo Brasília e lá sugerimos uma matéria sobre ele para o DFTV (jornal local daqui). Fizemos a matéria, editamos de uma maneira descontraída (que ficou bem divertida) e dias depois se tornou um dos VT's mais acessados e twittados do Portal G1 DF.

Depois desse episódio, tive a surpresa de atuar com ele num vídeo de humor, também da internet, chamado "Testemunha de Satan" - um esquete cômico dirigido por Ronaldo Gomes que parodiava os peregrinos religiosos que nos visitam em momentos inapropriados.


Pois bem, de repente Nobu estava na televisão, na internet, nas estreias de espetáculos que eu ia e, pouco a pouco, passou a ser uma figura sempre presente. Você troca de canal na TV e lá está ele sem camisa no Programa "Legendários" (Record TV), troca de novo e ele está cantando karaokê com Regina Casé no "Esquenta" (TV Globo). Não basta isso, ele ainda está sempre nos intervalos comerciais da TV em campanhas publicitárias diversas. Lembro de uma vez em que fui dar uma entrevista numa rádio sobre um projeto que produzi e PÁ... quem era um dos entrevistadores? Nobu Kahi. Eu já nem questiono. Levo o susto na hora, mas aceito e sigo o fluxo.


Tem também sua presença constante no teatro, seja no grupo do diretor Hugo Rodas ou em participações diversas em trupes do DF. Confesso que não sei como ele dá conta de estar em cartaz direto e em peças totalmente diferentes uma da outra...e mais que isso! Eu vou pouco ao teatro porque só saio de casa mesmo se a peça me conquistar já no argumento, mas sempre que vou lá está o Nobu na plateia. É quase inacreditável.

Essa figura engraçada, extrovertida, que grava snaps e stories de redes sociais repletos de humor (e catuaba), surpreende, às vezes, abrindo seu canal de comunicação para falar das dificuldades da arte, dos desafios rotineiros de se manter como artista independente. Quando li algo sobre isso a primeira vez, confesso que me choquei imediatamente, mesmo sentindo na pele muitas dessas questões.

Irei contextualizar...

No começo do segundo semestre de 2017, Nobu escreveu um daqueles textões que a gente escreve quando está insatisfeito e falou do quanto estava sendo difícil viver de teatro e publicidade sem ao menos receber por um dos dois. Na ocasião, citou um cachê atrasado e ofereceu seus serviços artísticos para trabalhos aleatórios, afinal, todos precisamos nos manter. Essa exposição de Nobu, nos assustou e fez refletir por dois motivos: 1º - Nós, artistas de Brasília, vivemos realmente ferrados quando não estamos em algum projeto com patrocínio em andamento; 2º - Nós, artistas de Brasília, estamos sempre comendo Nissin Miojo e arrotando Creme de Abóbora com gorgonzola nas estreias e vernissages da cidade.

A publicação de Nobu apresentou uma super problemática que todos nós vivemos e pouco falamos. Nós não estamos bem. A gente aparece bonitão na foto do instagram, mas nunca conta que, às vezes, a roupa que usamos num evento é de algum estilista da cidade que nos emprestou só para aquela ocasião - A gente é "famoso" porque sai nas fotos de sites e blogs e para o estilista é uma boa maneira de divulgar sua grife... Uma via de troca estratégia. E aí ficamos os dois lados fingindo que somos bem sucedidos o tempo todo (é o marketing).


Quando li a publicação de Nobu no Facebook, coincidentemente, eu estava trabalhando na produção do Festival Cena Contemporânea 10 meses depois do meu último trabalho na cidade. No meu caso, fiquei 10 meses afastado por opção, após uma série de decepções em produções brasilienses, assumindo os riscos de viver meses com um pé-de-meia que havia juntado e uma herança que tinha recebido. No momento em que vi o teor da sua mensagem-desabafo, pensei: Cara... e isso acontece com todos nós e o pior é que nem tão cedo essa situação vai mudar. Sabe aquela máxima de "não me dê likes, me ofereça jobs"? Ela veio como um tapa na cara de todos nós pela voz de quem habitualmente só nos fazia rir. E aí o que fazemos? Apoiamos, damos um like, torcemos pra que a situação do colega melhore e ficamos nós, do lado de cá da tela, nervosos e ansiosos, pois, assim como ele naquela ocasião, todos nós seguíamos por aqui com nossos cachês atrasados também e com vergonha e medo de protestar, pois a pior represaria pra nós, atores, é reclamar de cachê atrasado e nunca mais ser chamado pra outro trabalho pelo qual só receberemos depois de uns 50 dias da gravação.

Aí o tempo passou, Nobu seguiu (e segue) trabalhando, gravando, dando entrevista de improviso pra Fátima Bernardes no "Encontro" (TV Globo), participando de Festival de Teatro Universitário, até que, de repente, nos surpreende com um convite natalino e uma maquiagem super mega ultra lúdica em mais uma postagem ironicamente deliciosa em suas redes sociais, com o seguinte provérbio:

"Trabalho é trabalho. Já disse! Só vai tomar champanhe comigo quem um dia tomou catuaba quente comigo. Só venha! #job".

Para encerrar as citações do ator em redes sociais, deixo aqui mais uma de suas polêmicas e sinceras postagens: "Sou um cara esforçado. Um operário. Acho que os chefes percebem isso. E não quer dizer muita coisa. Sinto que toda essa jornada de conhecimento é um caminho. Um meio. Trabalho com quem quero. Com quem posso. Com quem quer compartilhar comigo algo. Nem sempre dá certo. Já fui expulso do 'teatrando' da Adriana Lodi. Luana Proença recomenda não trabalhar comigo. Ainda bem que existem mais pessoas fazendo teatro. Senão já teria desistido logo no começo. rs".

Meus, caros, minhas caras.... é isso! Nobu Kahi é um belo exemplo de como nós, artistas, lidamos com o glamouroso e cru mundo da arte. Não é a toa que o escolhi (sem ele saber) para abrir esse projeto singelo sobre situações, "causos", espetáculos e artistas de Brasília que merecem, de acordo com meu ponto de vista, serem temas de nossas mais despretensiosas rodas de conversa, seja com com rodadas de catuaba ou com champanhe.

Sim... Precisamos falar de Nobu Kahi.

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