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  • Josuel Junior

Precisamos falar de... Artistas-jornalistas


Eles colocam a gente no ar, seja pelas ondas do rádio, pela tela da TV, pelo post no site ou na página do jornal... Além disso, assumem o lado de quem produz arte e faz a parada toda acontecer. Sim... Precisamos falar dos jornalistas-artistas de Brasília!


É certo que na arte a gente quer cada vez mais se livrar de rótulos, de conceitos pré-estabelecidos e de nomenclaturas que já saíram de moda, porém, acho que o termo artista-jornalista (ou jornalista-artista)... ou quem sabe jornalista das artes (ou artista do jornalismo) é o que melhor me vem à cabeça na hora de falar desses colegas que ralam pra fazer a nossa arte (e a deles) ser notícia por aí. Para esse texto, escolhi quatro nomes da cidade e vou tomar a liberdade de falar um tiquinho de cada um deles: Márcia Witczak, Diego Ponce de Leon, Isabella de Andrade e Sérgio Maggio.

SERGIO MAGGIO


Conheci Sérgio Maggio lendo as edições do Correio Braziliense na época de estudante. Já sabia quem ele era só pelo nome, mas pude ter um contato maior mesmo quando estava me graduando na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Achava o máximo ter aula com um cara do Correio Braziliense e que tinha uma mente super inventiva. Sérgio era professor de Dramaturgia Contemporânea. Na época, ele tinha recém lançado seu livro “Conversas de Cafetinas” (Arquipélago, 2009), que posteriormente culminou na peça “Cabaré das Donzelas Inocentes”.

Por ele ser nosso professor (e por eu já trabalhar divulgando grupos da cidade), morria de vergonha de mandar qualquer e-mail pra ele como sugestão de pauta pro Correio Braziliense, porém, a figura doce que tem Sérgio facilitava todos esses tramites acadêmico-burocráticos. Me recordo que nossa turma montou com ele “A noite das mulheres perdidas”, um exercício cênico que já mostrava o embrião de uma linha de trabalho massa dele como dramaturgo e encenador. Éramos estudantes e não tínhamos tanta noção do que era tudo aquilo. Nesse mesmo período, eu participava de uma peça da Cia Fábrica de Teatro chamada “Beijo no Asfalto” e foi a primeira vez que vi meu nome numa nota no jornal escrita por ele. Depois dessa, vieram várias outras, mas essa em especial me dá uma certa nostalgia, pois ele foi ver a nossa apresentação e dois, três dias depois saiu no jornal. Fiquei tão empolgado que comprei uns quatro exemplares (rs).


Não bastasse isso, Sergio foi meu orientador de monografia quando fiz licenciatura. Um desafio difícil pra caramba pra nós dois. Ter orientação dele no subsolo do prédio dos Correios, lá no CEDOC, com aqueles livros e jornais antigos, era muito pra um estudante que não sabia direito como falar de telenovela numa faculdade fundamentada no ensino puramente teatral.

Sempre engajado, o Sérgio artista quis porque quis montar uma espécie de coletivo artístico, intitulado, se não me falha a memória de Honestino Guimarães. Quis participar na época, mas a correria não permitiu. Confesso que achava o máximo ver o grupo se reunindo pra falar de teatro, de performance... Eram olhos de fã mesmo. Depois ele engrenou lindamente com o musical “As canções de Odair José”. Era um mergulho popular delicioso no universo musical do cantor e que circulou pra caramba. Lembro que levei minha mãe e ela ficou louca na plateia. Queria que eu falasse com ele pra que fizesse um outro espetáculo parecido, só que com músicas do Amado Batista (rsrsrs). Obviamente não passei o recado adiante. Logo depois, a peça "Duas Gotas de Lágrimas no Frasco de Perfume", também dirigida por Sérgio, rodou bastante pelos teatros. Já estava certa sua veia de diretor teatral.


Atualmente, Sérgio assume a direção de “L – o musical”, espetáculo que também tem circulado pelo país com músicas da MPB interpretadas por Elen Oléria, Gabriela Correa, Elisa Lucinda e muita gente boa.

E não acaba aí... Sérgio jornalista assina a coluna Tipo Assim do Portal Metropoles e administra a página do Facebook Me bata um abacate, com postagens irônicas e divertidas sobre a cena artística ou acontecimentos diversos do Brasil, tendo um conteúdo bacana e ajudando a galera de Brasília a também ser notícia.

DIEGO PONCE DE LEON


Quando nós já estávamos acostumados com a presença de Sérgio Maggio como crítico de teatro do Correio Braziliense, um novo nome foi despontando no caderno de Diversão & Arte do jornal. Era Diego Ponce de Leon, que passou a ser figura-chave nos teatros da cidade, sempre propondo análises críticas do espetáculos produzidos na capital. Eu só o conhecia pelas assinaturas das críticas mesmo. Tivemos um contato maior quando fiz umas assessorias de imprensa e acabamos cruzando nossos caminhos. Foi numa matéria sobre um ensaio fotográfico que produzi - o “[Nu] Objeto” (Daniel Fama e Fábrica de Teatro) – que nos aproximamos, de fato. Trocamos muita ideia sobre a questão de fotografia de nudez artística na cidade. Na época, o “[Nu] Objeto” era matéria em todos os meios de comunicação do país. O ensaio acabou estampando uma super capa que Diego assinou no caderno de cultura – a primeira com nudez frontal. A partir daí nos tornamos amigos e fui entendendo mais a linha de trabalho de sua investigação artística.

No ensaio fotográfico, intitulado “Que gosto tem seu beijo?” (Daniel Fama e Fábrica de Teatro), fiz questão de convidá-lo para posar... e foi uma tarde de muitas risadas no set improvisado em Samambaia. O beijo dele (segundo ele) tinha sabor de Legião Urbana, rock in roll e Madonna!


Aí veio a surpresa! Surgiu uma persona na cena artística do DF: Carmela Veloso de Beauvoir. No começo eu não entendia bem se era uma personagem, uma provocação, um estado de espírito ou uma onda passageira. Carmela passou a figurar em ensaios fotográficos, audições acadêmicas, mesas e simpósios artísticos e tornou-se conhecida pela cena artística local. Havia também uma coluna dela no Correio Braziliense. Eu achava isso um ato de transgressão maravilhoso!

Atualmente à frente do programa Na ponta da língua, Carmela parte para a ignorância na Rádio Metropoles FM, comentando fatos, apresentando séries musicais e pincelando atrações culturais do DF.

E não é só isso, meus caros. Diego Ponce é louco! Ele é louco! Acredite em mim... ele é louco! Faz coberturas nacionais e internacionais, assessoria de imprensa, produção fotográfica, é intérprete, revisor de textos, produtor cultural e pai de família. Em 2017, após um longo período afastado da cena do DF, retornei à realidade sendo seu assistente de coordenação nas atividades formativas do Festival Cena Contemporânea. Ali tudo mudou... Ele passou a ser meu chefe e era uma loucura! Ele a mil por hora com quatrocentas demandas, uma atrás da outra, um monte de papéis na mesa e eu atento à ordem cromática dos meus florais calmantes e chás terapêuticos, dividindo o mesmo espaço. Uma dupla que não tinha aparentemente nada a ver num trabalho de produção cultural. Ponce estava acostumado ao ritmo frenético de uma redação jornalística e eu estava justamente fugindo de altas velocidades e buscando paz e serenidade. E não é que o trabalho deu certo? Vou corrigir... O trabalho deu muito certo! Nosso núcleo foi um arraso no Cena, tanto na organização das oficinas, quanto na produção da FOTONA! E é sobre ela que falarei agora...


Uma ideia na cabeça de Diego: a maior foto de nu artístico do Centro Oeste; Um fotógrafo para assiná-la: Kazuo Okubo; Um caminhão guindaste, gente pra chamar e estagiários pra organizar: Josuel, este moço que vos fala.

A FOTONA foi uma mega produção do Cena 2017 que alcançou uma repercussão interessante na cidade. Eu só tinha experiência de produção de ensaios em massa realizados em estúdio. Em locais abertos, a história era outra... mas demos conta e temos aí uma fotoperformance potente, transgressora e importante pra arte do DF. A ideia que nasceu de Diego se expandiu, ganhou forma pela gestão do Cena, conseguiu aliados diretos e indiretos e hoje pertence a todos que posaram nessa aventura fotográfica inesquecível. Ao todo, foram 115 participantes pelados, nus com a mão no bolso!

Se você quiser conferir um pouco do trabalho de Diego e sua Carmela, se ligue na Rádio Metropoles 104,1 FM a partir das 21h e delicie-se!

MÁRCIA WITCZAK


Ela com certeza vai dizer que não se considera artista e vai achar estranho estar aqui... mas não há como deixar seu nome de fora, afinal, Márcia Witczak é a cara da cultura no Distrito Federal, até porque tudo o que passa no DFTV 1ª edição de sexta ou sábado é visto por mais de 700 mil pessoas diariamente... e lá está ela anunciando as atrações locais. Dona de ideias que chegam mais perto do público e os leva para dentro da TV, Márcia está há mais de 15 anos no comando da agenda de Diversão & Arte do jornal local da Globo Brasília e atualmente assina a editoria de cultura da emissora, que coloca no ar quadros importantíssimos para os artistas brasilienses. São eles:

"Tô te convidando” (quadro em que o artista vai à TV gravar 30’’ de chamada de sua peça);

Rapidinhas da Marcinha” (um compilado de trechos de espetáculos, shows e exposições num VT narrado);

#ProgramãoDFTV(quadro nascido no RJTV e que permite envio de videoselfies pelas redes sociais).

Antigamente, não havia outro meio de se colocar uma notícia cultural na TV que não fosse por mala direta, por telefone ou por e-mail geral. Nessa época, eu fazia assessoria de imprensa de grupos de Samambaia sem ao menos saber que o nome desse serviço era assessoria. Liguei muito, mandei muito e-mail sobre a Paixão do Cristo Negro, os movimentos juninos, as apresentações e espaços culturais e fui entendendo empiricamente como funcionava pra estar na TV. Conhecia Márcia como aquela repórter bonitona e imponente que aparecia de vez em quando, mas nunca troquei muita ideia por achar que ela nem daria moral.


Em 2009, fui assistente de direção do espetáculo “Estação Felicidade”, escrito pelo seu irmão (o ator, poeta e dramaturgo Maurício Witczak). Nessa época, nos cruzávamos sempre, mas sem nenhuma intimidade. Até que um dia passei num concurso da Globo Brasília e trabalhei como repórter comunitário do DFTV. Coincidentemente, nos tornamos colegas de redação e passamos a trocar figurinhas sobre a cena cultural brasiliense, sempre com indicações pra agenda, ideias de gravação, essas coisas.

Márcia me deu uma super oportunidade dentro da Globo num projeto piloto chamado Brasília Independente”, em que bandas musicais locais se inscreviam para aparecer na TV e poder ganhar um prêmio ao final do concurso. Na primeira edição, o prêmio era um videoclipe totalmente produzido pela emissora. Quando o orçamento foi aprovado, ela me procurou e me convidou para fazer a direção artística dele... Eu, um menino de 24, 25 anos. Além da direção, assumi também a produção de elenco e de set via Fábrica de Teatro (companhia que eu coordenava na época). No período que ia da pré à pós -produção eu já me sentia super amigo dela (ahahaha). O videoclipe foi lançado e o projeto Brasília Independente é sucesso até hoje em outros formatos. Por isso eu insisto em dizer que ela é artista. Montar um projeto musical na cidade, alcançar tantas bandas, tantos artistas e promove-los na TV vai além, muito além do básico do jornalismo. Estou falando de engajamento... engajamento ideológico, conceitual, estético e social.


Quando meu contrato como repórter comunitário acabou, por uma série de questões fui parar na editoria de Diversão & Arte, passando a ser chefiado pela Márcia, vejam só! O que eu gravei de “Tô te convidando” nessa vida não tá no gibi! Com ela, fiz Globo Comunidade, DFTV, Agenda Cultural, lançamento de novela no DF, promoção de show... Estive com Márcia nessas etapas de linha de produção em televisão e aprendi muito enquanto artista, produtor de TV e assessor de imprensa vendo o outro lado: o lado de quem coloca a gente no ar. Claro... o sentimento que fica é de gratidão!

E aí eu tô a todo instante a encontrando por causa dos grupos de Brasília que assessoro. Hoje é uma amiga que admiro, que me ajudou aí nesses momentos estranhos que a vida nos traz, e uma profissional que faz muito pelos outros artistas do DF. A gente sabe que é bom pro artista anunciar seu trabalho num jornal e também sabe que pro jornal é bom ter conteúdo cultural pra passar, porém, quando isso é feito com zelo e respeito, a coisa fica melhor ainda. Por isso, achei importante falar da senhora Witczak.

ISABELLA DE ANDRADE

Acima falei de profissionais que estão há um longo tempo no trabalho. Agora, quero falar de um nome da nossa geração que está conquistando seu espaço no jornalismo cultural. Como a pauta de hoje é sobre jornalistas-artistas, eu não poderia deixar de falar de Isabella de Andrade. Formada em jornalismo e em artes cênicas, Isabella é também escritora literária, fotógrafa e administra dois blogs: o Ciclorama – Palavra em Cena e o Além da Cena.


O Ciclorama – Palavra em Cena tem muito da personalidade de Isabella. Na página e no site, literatura, poesia, teatro e fotografia caminham juntos em narrativas que promovem a cultura local. Já o Além da Cena tem o selo do Correio Braziliense e conta com entrevistas completas e abordagens mais amplas sobre o trabalho de artistas da cidade ou de espetáculos que chegam ao DF. Basicamente, o que não coube no jornal, Isa joga no Além da Cena, contemplando ainda mais o trabalho de seus entrevistados.

Recentemente, eu disse à ela o quanto gostava da maneira com a qual elaborava suas perguntas. Acho até que ela já pensa nelas sabendo o que não gostaria que lhes perguntassem como artista. Assim, o que chega pra nós é um filtro bem inteligente que atiça nossa vontade de responder com o coração.

É curioso... Sair no blog Além da Cena passou a ser tão prazeroso e honroso quanto sair no jornal impresso. Acho que essa impressão que tenho é pelo fato de saber que alguém se preocupou em aproveitar mais as entrevistas sem se atentar unicamente ao resumo do que vai para as meias-páginas dos impressos. Como ela mesma coloca, seu trabalho estuda as possibilidades do jornalismo literário, da poesia, da dramaturgia e uma possível convivência entre eles. Talvez por isso sua escrita seja tão convidativa, agradável e digna de respeito.

Creio que essa seja um caminho assertivo para que nós, artistas, não nos sintamos estranhos quando nos lemos através das entrevistas que nós mesmos demos. Esse trajeto mais holístico entre a percepção do trabalho do outro e a criação autoral é a porta para uma futura crítica teatral da cidade. Aliás, em Brasília, estamos com poucos críticos teatrais em veículos formais. Eu, particularmente, não me encanto muito com essa coisa da crítica, mas sei o quanto é importante termos alguém da cidade que trabalhe continuamente com isso e não apenas como freelancer de eventos (não desmerecendo, claro, quem trabalha assim, pois também é uma válida opção).

Isabella produz muito! Tem texto dela específico para o Correio Braziliense, um ou outro que vai para a Revista Encontro (da mesma linha editorial). Me arrisco a dizer, inclusive, que as capas mais legais estão sendo as dela atualmente.



Se você quiser conhecer mais sobre o que é produzido por Isabella de Andrade além do jornalismo, terá como uma outra opção o livro "Veracidade" (Patuá, 2015), escrito por ela e disponível para vendas pelas redes sociais do Ciclorama.

Existem mais artistas-jornalistas em Brasília que passeiam pelas diferentes áreas dessa nossa grande produção cultural local, como Morillo Carvalho, Daniel Zukko, Roberto De Martin, André Amaro e muitos outros. Cada qual com seu trabalho e contribuição pra cena artística do DF. É importante saber quem nos ajuda a fazer virar notícia essa arte toda que carregamos em nossas mentes inquietas e pensantes. Precisamos falar mais... bem mais!

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