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  • Josuel Junior

Precisamos falar de... Atores que queremos ser!


É certo que o reconhecimento vem com o tempo... e é tempo de reconhecer quem é, de fato, muito bom no teatro de Brasília.

Sabe quando você está na faculdade de artes e tem aquele afã de conhecer atores que já estão no mercado de trabalho, interagir com eles e acompanhar seus trabalhos? É uma sensação gostosa, típica da juventude que quer também se tornar profissional. É comum também saber nomes e conhecer um pouco do trabalho de certos atores, mesmo que nunca tenhamos trocado ideia com eles (e, claro, com as redes sociais esse "acompanhamento" se torna até mais fácil).



Em 2007, quando cursava a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, não havia o Facebook (no máximo o Orkut), ou seja... pra conhecer bem um ator era necessário vê-lo em cena no teatro. Foi mais ou menos nessa época que puder assistir "Virilhas", obra dirigida por Alexandre Ribondi. "Virilhas" é, talvez, uma das primeiras peças brasilienses com sistema de produção de "licenciamento", pois já foi montada com diferentes atores e formatos ao longo dos anos. Trata de uma noite conturbada na vida de um casal homoafetivo. Na época, pude ver em cena Gabriel F. e Sérgio Sartório. Nossa... Como aquilo foi retumbante pra mim! Dois atores potentes num espetáculo poético-transgressor. Essa peça pautou muitas de minhas aventuras etílicas com colegas do teatro. Por muito tempo sabia algumas falar de cor. Aí, volta e meia, cruzei com Sergio Sartório em diferentes eventos da cidade, como aberturas de festivais, espetáculos, vernissages ou encontros casuais de bastidores. Cheguei a gravar um filme com ele... Se não me engano o nome era "Eu não sei". Mas é isso... Encontros sempre curtos e quase diplomáticos.


Vinícius Ferreira conheci numa montagem fruto de uma disciplina de direção da colega Isadora Stepanski da Faculdade Dulcina, cerca de 10 anos atrás - "A Perseguição ou O Longo Caminho que vai de Zero a Ene". Um espetáculo ágil de teatro físico com uma escada megalomaníaca que gerava imagens incríveis. Cruzei com ele também em alguns sets de cinema e fui acompanhando seu trabalho no teatro e cinema, mas também de forma bem tímida. Aliás, como esse rapaz grava filme, meu Deus! Você vai assistir a um trailer de qualquer filme de um amigo seu e lá está Vinícius aparecendo.


André Deca é também um dos atores e produtores mais requisitados de Brasília. Além de assinar a Deca Produções, que traz diferentes espetáculos nacionais para a capital, ele figura entre os profissionais mais ativos na produção audiovisual do DF. Com André nunca tive grande aproximação. Já cruzei com ele em testes de elenco da cidade, mas nada que passasse de um acenar de sobrancelhas. Recentemente tive um maior contato com o ator, como contarei nas linhas abaixo...

Já Chico Sant'Anna a gente conhece porque é quase um senso comum para qualquer ator da cidade. Você pode nunca ter trocado uma ideia com ele, mas com certeza sabe quem ele é, seja zappeando um canal e vendo ele numa cena de alguma novela do "Vale a pena ver de novo" ou vendo registros aleatórios sobre a história do teatro brasiliense. Chico é, sem dúvida, uma das mais gratas surpresas que tive nos últimos anos. O conheci propriamente na esfera da produção cultural. Atualmente, dividimos uma função de produção no Espaço Cena (um teatro-escritório de Brasília) e confesso que é um casamento de trabalho tão positivo que o trabalho nem parece trabalho. São quase bate-papos diários que rendem nas tarefas finalizadas ao longo dos dias. É sério... É um ator que eu acompanho há tempos, um profissional super sensível e uma pessoa com doçura e generosidade incomparáveis. Aprendo observando e o vejo extremamente aberto a também jogar junto na hora de tocar um projeto.


Mas aí você me pergunta... Por que, dentre tantos atores, citar exatamente Chico Sant'Anna, Vinícius Ferreira, André Deca e Sérgio Sartório? Porque em menos de um mês assisti a dois espetáculos da Cia. Plágio de Teatro, que comemorou 10 anos de atividade... E esses dois espetáculos me arrebataram o coração!

Criada em 2007, a Cia. Plágio de Teatro marcou o encontro de ótimos profissionais de Brasília para produção de diferentes espetáculos. O encontro inicial foi entre o ator, dramaturgo e diretor Alexandre Ribondi e o Ator, iluminador e cenógrafo Sérgio Sartório. Desde então, outros felizes encontros foram fazendo parte da trajetória da cia. O início dos trabalhos começou justamente com "Virilhas", que teve versões masculinas e femininas ao longo dos anos. No repertório do grupo, espetáculos como "O Homem de Buenos Aires", "Uma ilha para três", "Você não é perfeita. Tchau!", "As Invejosas", a polêmica "Nunca fui santo", o consagrado "Cru", que se transformou em filme, e as recentes "Noctluzes" e "A autópsia de um beija-flor", reapresentadas nas comemorações dos 10 anos da cia., que possui outros integrantes além dos que estão sendo citados aqui.

"Noctluzes" é um soco na alma de qualquer ator! Junta três atores que nos fazem pedir aos deuses do teatro que sejamos um dia tão bons quanto eles. O curioso das duas últimas peças do grupo é que, se formos pensar em resumos sinópticos, ficaria até engraçado dizer do que elas tratam.. Veja bem... Uma fala sobre o encontro de três desconhecidos num pier abandonado: Um homem que sente culpa pela morte dos outros, um cego e os resquícios de sua infância e um marido virgem à procura de doação de sêmen para a esposa. Pois bem... não se engane com esse resumo. A peça é arrebatadora! Do cenário, aos figurinos, sem contar a inteligente e refinada trilha sonora incidental, que dá todo o clima subliminar à caixa cênica. Nem ouso aqui falar da qualidade vocal, postura corporal ou marcação topográfica das ações... Falo aqui de um conjunto de repertórios físicos, cognitivos e poéticos que nos fazem ficar apaixonados pelo espetáculo. É teatro de ator, cara! Ao mesmo tempo é teatro com elementos estéticos e conceituais quase cinematográficos que utiliza da criatividade para gerar o clima de suspense-humor-crônica.


A peça é um jogo de ping-pong tão exato, tão premeditado, tão bem marcado, que a impressão que se tem mesmo é que você colocar três câmeras posicionadas, sai dali um longa-metragem surrealista ou quase realista-fantástico. É a típica peça que faz você titubear pra falar com eles depois... Um trabalho que te faz acreditar na profissão e pedir pra estar perto deles! "Noctluzes" já esteve em cartaz diversas vezes por todo o país. Se por acaso passar por tua cidade, nem pense duas vezes. Vá!


"A Autópsia de um beija-flor" vi três vezes seguidas num mesmo final de semana. De novo... em resumos sinópticos, fica muito engraçado pensar sobre o que a peça trata: Dois agentes secretos desconhecidos se encontram para espiar algo que a gente também desconhece. Ponto final! O que vem depois é a pura surpresa! Na ocasião, foi uma pena ver o teatro minguado de público, mas isso é uma questão para futuros textos. Agora, o que valeu a pena mesmo foi ver o ritmo que André Deca tem na defesa da tua personagem. E isso só se alcança com muita prática no palco e no vídeo . Você, como espectador, nota claramente um zelo e uma propriedade na dicção que dá até raiva! É um ator maduro, com gestos e ações bem elaborados. Ver a peça nos três dias consecutivos vira quase uma análise contemplativa das aptidões dos caras mesmo. Sérgio, por sua vez, utiliza os 60 minutos de espetáculo pra nos mostrar, a conta-gotas, sua versatilidade em cena. Como é bonito vê-lo degustar de cada gag, de cada ação, microtempo, de cada fugidinha de olhar que revela as entrelinhas da história. Chega num ponto em que você até torce pra que interrompam a peça e nos digam algo como: "Olha, neste ponto, a gente usa a técnica tal, com o tempo tal e a dilatação X"! É sério!!! Falo isso porque é uma prática de trabalho cênico que serve de escola ou de manutenção de repertório teatral. Um recurso parecido com o de "Noctluzes" é a utilização de trilha sonora incidental, que desenha quase toda a peça, levando o público para dentro da narrativa. Levei minha família pra assistir e o espetáculo virou tema de nosso cachorro-quente ao final.

Acredito, honestamente, que é preciso enaltecer e reconhecer o trabalho dos artistas contemporâneos, principalmente quando estão perto da gente. Essa visão romântica e equivocada da valorização da "Belle Époque" é algo tendencioso e perigoso. A época boa tá acontecendo neste momento. Sabe-se que as futuras gerações falarão um dia do trabalho de Chico Sant'Anna, mas a questão é que Chico é atual, Chico é presente. Pra vê-lo é só ir ao teatro. E lá será possível ver a entrega de seu corpo, se atentar à sua respiração, ao seu movimento de mãos, ao seu cálculo de intensidade na hora de mexer a cabeça pra ouvir a fala das outras personagens. Chico está em cartaz com Sérgio Sartório, que é outro cara do momento, que emenda um trabalho atrás do outro. Vinícius Ferreira, André Deca, não são pessoas que existiram. Eles existem, são atores instrumentalizadíssimos, atentos às tradicionais e novas tendências da interpretação. Acredito que é tempo de assisti-los agora, de dizer o quanto são bons agora, porque André, Chico, Vinícius, Sérgio são do nosso tempo! Estão na ativa! Com a permissão da palavra... são uns puta atores!

Para conhecer melhor a Cia Plágio de Teatro nas redes, siga a página do espetáculo "A Autópsia de um beija-flor". Por ela, você vai poder se programar para futuras temporadas e entender os motivos pelos quais nasceu este texto.

Vida longa à Cia. Plágio! Vida longa ao teatro do nosso tempo!

https://www.facebook.com/aautopsiadeumbeijaflor/


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